Inovação e cooperação marcam avanços na acessibilidade e na tecnologia assistiva, com papel decisivo dos profissionais da área tecnológica A acessibilidade e a tecnologia assistiva vêm ganhando novas dimensões no Brasil com iniciativas que unem legislação, inovação acadêmica, tecnologia, engajamento social e atuação profissional. A recente publicação da Norma Brasileira (NBR) 17.225:2025, que estabelece requisitos para facilitar e otimizar o acesso de todas as pessoas aos ambientes virtuais, representa um marco no país. A diretriz da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) busca eliminar ou mitigar barreiras para utilização de websites, ampliando a inclusão e fortalecendo direitos já previstos em Lei. Para o advogado Cid Torquato, coordenador do Núcleo de Inovação e Acessibilidade do Centro de Pesquisa e Inovação da Universidade de São Paulo (InovaUSP) e embaixador do ICOM, plataforma de tradução simultânea entre pessoas que usam a Língua Brasileira de Sinais (Libras), a norma é fundamental para regulamentar o artigo 63 da Lei Brasileira de Inclusão (LBI). “Precisamos estabelecer a NBR 17.225:2025 como padrão nacional. É necessário também incluir a obrigatoriedade de acessibilidade em aplicativos, hoje ainda não prevista”, afirma. Dentre os avanços recentes, Torquato ressalta a inserção da Disciplina Paulista de Acessibilidade e Inclusão em universidades. Idealizado pela Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência de São Paulo (SEDPcD), em parceria com a USP e outras três universidades — Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp) e Universidade Virtual do Estado de São Paulo (Univesp) —, o curso aborda a análise de barreiras físicas, atitudinais, tecnológicas e pedagógicas, além dos direitos das pessoas com deficiência e a importância da cultura inclusiva. Atuação estratégica do Crea SP O Crea-SP tem atuado estrategicamente em colaboração com as cidades paulistas nessas ações, a exemplo da cooperação com a Prefeitura de Cubatão. De acordo com a Secretaria de Obras Públicas do município, atualmente, o órgão prioriza projetos que já nascem alinhados às normas de acessibilidade, garantindo rampas, sinalizações adequadas, mobiliário urbano acessível e transporte inclusivo. A parceria com o Conselho fortalece a qualidade técnica das soluções propostas. Com o apoio de especialistas, é possível elaborar projetos mais consistentes, que não apenas atendem à legislação, mas que efetivamente transformam a vida das pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida. A cooperação garante que as políticas públicas sejam sustentadas por base técnica sólida, promovendo inclusão social, dignidade e mobilidade urbana de forma estruturada e duradoura. Na visão do engenheiro civil Amandio José Cabral D’Almeida Júnior, ex-coordenador da Comissão Permanente de Acessibilidade (CPA) do Crea-SP e especialista em Acessibilidade Arquitetônica e Urbanística, o engajamento da Engenharia é indispensável. “Os profissionais da área tecnológica são aqueles que mais podem contribuir para melhoria da qualidade de vida, com acessibilidade e inclusão a todas as pessoas. Ao projetar produtos, espaços e serviços temos a obrigação de garantir que todos possam desfrutar das experiências de nossas criações”, diz o engenheiro ao enfatizar a atuação da autarquia em cultivar consciência social. Projeto Mão 3D Os avanços ganham ainda mais força quando os resultados são compartilhados por quem teve a vida transformada. A universitária Maria Eduarda Venancio, estudante de Ciência e Tecnologia, nasceu com má-formação congênita na mão direita e compartilha sua experiência com as próteses desenvolvidas para ela pelo projeto Mão3D. A iniciativa da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) utiliza a impressão em três dimensões para criar e doar próteses, órteses e dispositivos de tecnologia assistiva, principalmente para membros superiores, a pessoas com deficiência física em todo o Brasil. “Quando coloquei a prótese pela primeira vez, me emocionei, e ao mesmo tempo fiquei impactada sobre como é diferente ter outra mão. Agora consigo realizar meu desejo de tocar violão, que não seria possível sem essa tecnologia. Eles fizeram especialmente para mim e pude participar da criação e personalização”, conta Maria Eduarda. A inovação veio da ciência e da tecnologia aplicada. A engenheira biomédica Thabata Ganga, vice-coordenadora do projeto Mão3D, destaca a importância da área tecnológica no processo. “A Engenharia Biomédica foi essencial. Além do aspecto técnico, a área também contribuiu para aproximar ciência, saúde e sociedade, garantindo que a solução fosse clinicamente viável e socialmente relevante. A tecnologia assistiva é um campo que integra diversas modalidades profissionais e cada uma contribui de forma complementar”, explica. Thabata esclarece que a solução só foi possível pelo uso de softwares livres de modelagem 3D, impressoras de baixo custo e o desenvolvimento de protocolos simplificados de design e produção, que permitiram oferecer próteses funcionais a um custo muito inferior ao das soluções convencionais. “As políticas públicas são fundamentais para transformar iniciativas pontuais em programas estruturados de atendimento. O futuro aponta para soluções híbridas, que combinam manufatura digital, inteligência artificial e conectividade, sempre com foco na personalização e na inclusão social”, afirma. O impacto positivo desse trabalho ganhou destaque em uma campanha institucional do Crea-SP, demonstrando como a atuação da área tecnológica pode mudar realidades. Saiba mais O que é tecnologia assistiva? São produtos, equipamentos, dispositivos, recursos, metodologias, estratégias, práticas e serviços que visam promover uma inclusão funcional à pessoa com deficiência ou com mobilidade reduzida, com o objetivo de melhorar a qualidade de vida e garantir mais autonomia e independência no desempenho de atividades diárias. A engenheira biomédica Thabata Ganga afirma que o futuro da tecnologia assistiva aponta para soluções híbridas, que combinam manufatura digital, inteligência artificial e conectividade, sempre com foco na personalização e na inclusão social. “Como exemplo, destaco a produção de órteses personalizadas para reabilitação neurológica, próteses estéticas faciais e mamárias, biomodelos anatômicos para planejamento cirúrgico e o uso de sensores integrados para monitoramento terapêutico”, evidencia. “A tecnologia assistiva é um campo que integra diversas modalidades profissionais e cada uma contribui de forma complementar”, declarou a engenheira biomédica Biomed. Thabata Ganga [Reportagem técnica publicada na edição 17 - julho-setembro de 2025, da Revista Crea São Paulo] Fonte: Crea SP – visite o site oficial www.creasp.org.br
